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Qual é o texto mais difícil da Bíblia? Pra mim, por muitos anos, a resposta para essa pergunta era Deuteronômio 22.23–27. Esse pequeno trecho da Torah traz a legislação do povo hebreu sobre o estupro. A regra é curta, não inclui todo debate que hoje levantamos sobre o assunto, mas traz alguns elementos que, à luz das discussões modernas sobre direitos da mulher, nos soam injustos e até maus.

A regra era simples: Se uma mulher fosse tomada à força por um homem na cidade e não gritasse por socorro, os dois seriam apedrejados por adultério. Se ela fosse tomada no campo, onde seus gritos de socorro não seriam ouvidos, ela seria poupada e o homem morto. Essa regra hoje seria criticada pois realiza aquilo que chamamos de “culpabilização da vítima”, que é quando atribui-se à vítima alguma culpa pelo crime sofrido. …


Pensei muito se devia dizer algo a respeito do caso do tio estuprador que abusou da sobrinha por quatro anos, abuso que resultou na gravidez da vítima aos dez anos. Estava decidido a não me pronunciar, porque não via forma de dizer algo que não acendesse ira nas outras pessoas. A Bíblia diz que “a ira dos homens não produz a justiça de Deus” e eu não ajudaria em nada colocando mais pimenta no molho. Mas agora, depois de um tempo de reflexão, lembrei de algo que me ajudou a pensar o tema.

A questão é o Amor. “Não, a questão é a justiça” alguém diria e eu concordaria. Martin Luther King disse que “Justiça é a forma como o Amor se demonstra em público”. Então, se falo numa perspectiva cristã, falo daquele amor que “não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade” (1 Co. 13.6). O amor é o centro da ética cristã. Nasce no Deus que é amor e se espalha pelos homens que amam porque Ele amou primeiro. Tudo o que um cristão faz, deve ser feito por amor. Um movimento pró-vida cristão deve ser um movimento de amor. Deve agir pela vida do não-nascido porque o ama. …


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Jorge Luis Borges foi um gênio do conto. Talvez o melhor de todos. Seus textos são joias tanto pelo estilo genial, quanto pela profundidade e erudição. Além disso, seus escritos foram influência para muitos escritores e roteiristas que vieram depois dele, de Umberto Eco (que acrescentou em O Nome da Rosa um personagem em homenagem ao argentino) ao blockbuster Matrix.

Mesmo agnóstico, Borges era muito versado no texto bíblico e nas discussões da teologia. Entre seus autores mais citados está o inglês Chesterton, famoso também como teólogo e apologeta cristão. Milton e Bunyan também figuram entre suas principais influências.

Sua incursão pelo sagrado não para no cristianismo. Muitas de suas histórias falam de dogmas islâmicos, tradições judaicas e tantos outros aspectos de tantas outras doutrinas. As religiões têm lugar de destaque nos contos borgianos, tanto as reais quanto as que ele inventou. Isso não é de se estranhar, já que muitos de seus escritos ocupam-se de temas metafísicos e, neste campo, a fé aparece como tradição incontornável. …


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Vamos fazer um exercício. Abra sua timeline no twitter, facebook, instagram. Passe os olhos rapidinho, o que você vê? Você é do tipo das postagens políticas iradas? Das fotos de viagens e encontros com os amigos? Dos posts românticos com o amor da sua vida? Talvez um misto de tudo isso e ainda opiniões sobre filmes que assistiu, meditações sobre temas mais profundos, comportamento, textos religiosos, piadinhas…

Pare um pouco em alguns desses posts. Os que se destacaram mais pra você. Tente se lembrar do sentimento que te dominava quando você postou. …


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A grandeza do Natal começa na compreensão da dimensão da distinção entre Deus e a humanidade. Foi Kierkegaard que cunhou a expressão “infinita diferença qualitativa” para explicar a relação entre Deus e o homem. Karl Barth se apropriou do conceito e afirmou que Deus é o “Totalmente Outro”, existindo em total alteridade em relação à humanidade. Para Barth, Deus e os homens são como duas esferas separadas, dois mundos completamente diferentes e não há esforço humano capaz de alcançar a divindade em sua transcendência absoluta.

O conceito pode parecer absurdo, considerando a visão tão imanente de Deus na religiosidade brasileira. Um Deus que faz milagres todos os domingos em tantas igrejas e diariamente se apresenta na televisão não pode ser um Deus distante. Mas não é essa a questão que Barth aborda. O que ele fazia em sua teologia era libertar o conceito de Deus de qualquer ideologia humana ou de qualquer representação idolátrica fruto dos interesses das sociedades. Deus existe em total independência do homem, não podendo ser definido por mera linguagem humana, nem conhecido por investigação empírica ou dedução racional. O único conhecimento possível de Deus se faz na revelação que Ele mesmo dá de si. Deus não pode ser descoberto por nós, é ele que se desvela e comunica de si mesmo aos homens. …


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O livro sagrado dos cristãos começa com a criação do mundo e termina com a renovação gloriosa desse mundo. Na criação, todos os homens encontram sua origem em Deus. Na renovação, essa origem é restabelecida. Isso é necessário porque, entre uma coisa e outra, a humanidade tenta romper com essa origem e estabelecer para si mesma uma identidade separada da sua fonte divina. O nome dessa ruptura é Pecado.

Por essa razão o racismo é pecado. Ele é a ideia de que os seres humanos estão separados em sua dignidade e valor por critérios raciais. Em outras palavras, o racismo nega a origem comum de todos os homens em Deus e coloca um outro definidor de humanidade: a raça. O racismo não é a identificação da diversidade cultural, a celebração do pluralismo que constitui o homem como imagem de Deus. Pelo contrário, o racismo é a hierarquização dos grupos humanos que nega o princípio básico e equalizador do Evangelho: todos pecaram e carecem da Glória de Deus. …

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Cacau Marques

Reflexões sobre a espiritualidade cristã e a sociedade

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