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Jorge Luis Borges foi um gênio do conto. Talvez o melhor de todos. Seus textos são joias tanto pelo estilo genial, quanto pela profundidade e erudição. Além disso, seus escritos foram influência para muitos escritores e roteiristas que vieram depois dele, de Umberto Eco (que acrescentou em O Nome da Rosa um personagem em homenagem ao argentino) ao blockbuster Matrix.

Mesmo agnóstico, Borges era muito versado no texto bíblico e nas discussões da teologia. Entre seus autores mais citados está o inglês Chesterton, famoso também como teólogo e apologeta cristão. Milton e Bunyan também figuram entre suas principais influências.

Sua incursão pelo sagrado não para no cristianismo. Muitas de suas histórias falam de dogmas islâmicos, tradições judaicas e tantos outros aspectos de tantas outras doutrinas. As religiões têm lugar de destaque nos contos borgianos, tanto as reais quanto as que ele inventou. Isso não é de se estranhar, já que muitos de seus escritos ocupam-se de temas metafísicos e, neste campo, a fé aparece como tradição incontornável.

Um escritor tão relevante e que trata com tanta frequência dos temas teológicos não deveria ficar fora das prateleiras dos teólogos em nenhum lugar do mundo. Por isso quero recomendar seis contos que acredito serem relevantes para alimentação das mentes teológicas. Poderia citar muitos outros, ou quase todos, mas esses aqui estão como uma isca para que você tome gosto e vá atrás dos demais:

  • Os Teólogos: Um dos contos presentes em O Aleph. Dois teólogos levantam para combater uma heresia e acabam em uma disputa entre si. Uma narrativa que discute a identidade e alteridade a partir de um debate teológico.
  • Três Versões de Judas: Parte do livro Ficções, é uma especulação sobre o papel de Judas na história da salvação. As três versões do título destoam bastante da ortodoxia cristã, mas provocam a mente e levantam um desafio interessante para qualquer teólogo.
  • A Seita dos Trinta: Conto presente em O Livro de Areia. Trata-se de uma descrição sobre uma fictícia seita cristã da antiguidade tardia a partir de um suposto manuscrito da época.
  • O Evangelho Segundo São Marcos: Um dos contos de O Informe de Brodie, livro que reúne textos mais diretos e realistas. É a história da leitura do evangelho por olhos bem diferentes dos nossos. Não digo mais para não estragar a experiência do leitor.
  • A Busca de Averróis: Outro conto do livro O Aleph. Como o próprio autor explica, trata-se da história de uma derrota. O mestre do islamismo medieval luta com o significado das palavras “tragédia” e “comédia” na obra de Aristóteles. No meio da história envolve-se em um debate que parte da natureza da revelação divina para os limites da palavra escrita. Um texto mais difícil, mas não menos saboroso.
  • Um Teólogo na Morte: Compõe a seção “Et Caetera” do livro História Universal da Infâmia. Uma sátira sobre Philipp Melanchton, criticando o exagero da doutrina da justificação pela fé. Não é uma figura muito elogiosa (ou mesmo justa) do reformador alemão, mas a crítica é pertinente.

Se você gosta de teologia e de literatura, leia Borges. Sua imaginação será enriquecida e sua própria teologia será exercitada e embelezada.

Reflexões sobre a espiritualidade cristã e a sociedade

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