E se os seus posts fossem orações?

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Vamos fazer um exercício. Abra sua timeline no twitter, facebook, instagram. Passe os olhos rapidinho, o que você vê? Você é do tipo das postagens políticas iradas? Das fotos de viagens e encontros com os amigos? Dos posts românticos com o amor da sua vida? Talvez um misto de tudo isso e ainda opiniões sobre filmes que assistiu, meditações sobre temas mais profundos, comportamento, textos religiosos, piadinhas…

Pare um pouco em alguns desses posts. Os que se destacaram mais pra você. Tente se lembrar do sentimento que te dominava quando você postou. Alegria, paixão, orgulho, raiva, indignação, tristeza… Eu sei que já fiz posts tomados por cada um desses sentimentos e acredito que o mesmo aconteça com você.

Agora reflita: Você compartilhou esse sentimento com Deus? Na alegria da viagem, você se lembrou de agradecer a Deus? Na ira contra as pessoas das quais diverge politicamente, você clamou para que a justiça divina se manifeste? Quando compartilhou aquela imagem triste de uma situação injusta acontecendo com pessoas que você nem conhece, você se lembrou de elevar uma prece pedindo a misericórdia do Senhor?

Isso não é uma pegadinha, nem uma forma de criar um sentimento de culpa. É só uma ajuda num diagnóstico espiritual. E não falo na posição de médico, falo na de doente. Porque eu fiz esse mesmo exercício e percebi que não estou agindo de forma correta em relação à minha espiritualidade. Descobri que os meus posts não apenas denunciam minha vida de pouca oração, mas tornaram-se substitutos das minhas orações. Quando posto uma crítica raivosa sobre o governo, por exemplo, não só estou expressando a minha indignação. Eu estou clamando por justiça. Sim, estou clamando para que meus amigos e seguidores também derramem sua indignação em forma de postagens, críticas e cancelamento, se necessário. Meu post é uma oração que pretende mover a mão de uma divindade coletiva furiosa.

Uma postura completamente diferente é a que vemos nos Salmos. Eles estão cheios de orações iradas clamando que Deus destrua inimigos. O salmista Davi, contudo, soube refrear sua mão nas oportunidades em que podia agir contra seu perseguidor Saul. Toda ira sincera lançada sobre Deus é tratada na confiança de que Ele faz o justo e não nós. Afinal, “A ira do homem não produz a justiça de Deus” (Tiago 1.20). Os posts furiosos, por sua vez, alimentam a ira humana pois ela é a própria expressão da justiça transcendente que aguardamos. Não postamos para tratar nossa ira, postamos para espalhá-la e intensificá-la.

O mesmo acontece quando compartilhamos algo triste e não oramos pelos que enfrentam aquela situação. Uma criança doente, uma pessoa em situação de abandono, uma catástrofe em um país distante. Quantos #PrayFor você compartilhou sem de fato orar pela causa? O que você de fato esperava com isso? Provavelmente, apenas a concordância de seus amigos em forma de reações e likes que confirmariam a sua bondade intrínseca. Você está só buscando que a divindade coletiva o considere um filho amado no qual ela se compraz.

Nossos posts estão tomando o lugar de nossas orações e nossos seguidores tomando o lugar de Deus. Deixamos o quarto em que o pai vê em secreto e vamos para as esquinas orar em pé. Ou melhor, levamos os olhares das esquinas para dentro de nossos quartos onde se ora “de si para si”. Já recebemos a recompensa em forma de likes, compartilhamentos, aumento do número de seguidores e de relevância. E não era exatamente por isso que estávamos clamando?

Se a resposta a essa última pergunta é “não”, então precisamos fazer algo a respeito. Orar antes de postar. Orar quando não for postar. Orar e não postar. Numa era em que não há mais privacidade, precisamos intencionalmente criar o secreto em que o Pai nos vê. Derramar nosso coração com toda a sinceridade diante dele antes de nos virar do avesso diante do mundo. E encontrar nele a recompensa.

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