Igreja, é necessário ser antirracista

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O livro sagrado dos cristãos começa com a criação do mundo e termina com a renovação gloriosa desse mundo. Na criação, todos os homens encontram sua origem em Deus. Na renovação, essa origem é restabelecida. Isso é necessário porque, entre uma coisa e outra, a humanidade tenta romper com essa origem e estabelecer para si mesma uma identidade separada da sua fonte divina. O nome dessa ruptura é Pecado.

Por essa razão o racismo é pecado. Ele é a ideia de que os seres humanos estão separados em sua dignidade e valor por critérios raciais. Em outras palavras, o racismo nega a origem comum de todos os homens em Deus e coloca um outro definidor de humanidade: a raça. O racismo não é a identificação da diversidade cultural, a celebração do pluralismo que constitui o homem como imagem de Deus. Pelo contrário, o racismo é a hierarquização dos grupos humanos que nega o princípio básico e equalizador do Evangelho: todos pecaram e carecem da Glória de Deus.

A promessa do Evangelho é contrária ao pensamento racista. Ao vencer o pecado, Cristo, o mediador de toda a humanidade, reconecta homens e mulheres com sua origem divina. O belo Salmo 87 afirmava que um dia todos os povos olhariam para Jerusalém e diriam: “foi ali que eu nasci”. Na Jerusalém em que nosso Salvador foi crucificado, a humanidade renasce. A esperança de reencontrarmos nossa origem divina concretizou-se na cruz. Por isso Paulo afirma em Gálatas que “não há mais judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo”.

É isso que celebramos na Ceia do Senhor. Todos comemos do mesmo pão, simbolizando que somos um só corpo unidos a um só Cristo. Discernir o corpo de Cristo significa entender essa realidade mística de nossa união nele com todos os nossos irmãos. Participar da ceia em divisão é não discernir o corpo e atrair para si mesmo condenação. Racistas não podem participar da ceia, porque não podem crer na sua mensagem. E a mensagem da ceia é que em Cristo os corpos brancos, negros, indígenas, orientais e todos os outros estão unidos. Cristo é negro, branco, oriental, indígena, judeu, árabe, aborígene porque em seu corpo estão contidos todos os povos, raças, línguas e nações. Racistas não podem ser cristãos porque não suportam a ideia de ser corpo de um Cristo que também é negro. Por consequência, Cristãos não podem ser racistas.

A Bíblia termina com a renovação de todas as coisas. E lá, no Apocalipse, em uma nova Terra sob novos céus, Deus diz: “Agora o tabernáculo de Deus está com os homens, com os quais ele viverá. Eles serão os seus povos; o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus” (Ap. 21.3). É curioso que a crítica textual, em geral, atesta a confiabilidade dos manuscritos que colocam “povos” no plural nesse texto. O entendimento que temos disso é que o Senhor receberá todos os povos em sua diversidade de expressões, mas unidos em Cristo. O povo de Deus é constituído de muitos povos, mas de um único corpo.

Mas, preste atenção.

Muita atenção, agora.

Porque essa é a parte mais importante desse texto:

ISSO NÃO BASTA!

Não basta dizer que o racismo é contra o evangelho. Não basta dizer que a Bíblia não é racista. Não basta dizer que em Jesus a identidade racial é suplantada por uma identidade divina. Não basta dizer que somos todos irmãos e parte de um mesmo corpo. Não, isso não é o bastante. Dizer não é o bastante.

O princípio da unidade cristã exige que levemos os fardos uns dos outros; exige que partilhemos as dores e dificuldades. Veja, não basta a Igreja dizer que é contra a pobreza e não cuidar do pobre. Não basta dizer que é contra o machismo e não cuidar da viúva. Que é contra a xenofobia e não acolher o estrangeiro. “Filhinhos, não amemos de palavra nem de boca, mas em ação e verdade”. A postura da igreja sobre o racismo não deve ser apenas um “deixa isso pra lá e me dá um abraço”. A postura deve ser a de chorar as lágrimas dos que choram, de levantar a voz pelos oprimidos, de exigir justiça para os injustiçados. Porque a Igreja cresce no Brasil, mas isso não tem significado menos corpos negros mortos nas ruas, menos negros encarcerados, maior acesso dos negros a cargos importantes, maior igualdade de oportunidades entre brancos e negros. Algo muito sério acontece no Brasil e a Igreja não pode fechar seus olhos para isso. O corte racial da nossa sociedade é visível, ainda que ignorado. E isso ofende a Deus e ao seu evangelho.

Em uma sociedade racista, a Igreja não só prega o evangelho da reconciliação, ela vive a reconciliação. Os irmãos brancos sentem as dores dos irmãos negros e, por isso, arrependem-se de seu próprio racismo e dão fruto desse arrependimento. Se simplesmente deixamos o racismo reinante sem o confronto do evangelho, na prática estamos sendo infiéis ao evangelho.

Uma Igreja fiel ao evangelho não é apenas uma Igreja não-racista. É uma Igreja antirracista.

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Reflexões sobre a espiritualidade cristã e a sociedade

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